Historinhas

 

O primeiro vinho que eu fiz

 

Montevidéu, 1970.  Minha filha Julianne era recém-nascida e nossa pequena família morava num apartamento de fundos, na Rua Alicante, 1722, no bairro Ramón Anador.   
 
Ao lado do nosso prédio havia um casarão no centro do terreno. Seu jardim era protegido da calçada com uma cerca e portão de telha de arame. A casa tinha paredes altas e telhado de zinco. Nela morava um casal de velhos italianos, ambos muito baixinhos, fortes, saudáveis e de rostos enrugados pela vida. Não tinham filhos nem familiares. Ela, Dona Catarina, varria a calçada todas as manhãs usando um avental marrom e um lenço de cores desvanecidas na cabeça.
 
Já Dom Antônio, com sua camiseta branca amarelada, de três botões na gola e calças recolhidas até os joelhos, lavava sua “cachila” (carro velho) que ficava estacionada dia e noite na porta de sua casa. A “cachila” era um Ford “T” 1929.  Eu estava fascinado com o carro do Dom Antônio: tinha para-lamas pretos, carroceria verde-escura, faróis cromados e teto conversível de lona preta. Ao se abrir o porta-malas do carro surgiam mais dois bancos por cima de um baú amarrado ao chassi por cintos de couro.
 
Um dia, eu estava passeando pela rua com minha filha, enquanto Dom Antônio lavava seu carro. Aproximei-me  e comecei a puxar assunto, elogiando seu Ford “T”.  E nos tornamos amigos.
Passados uns dias, numa manhã quente de fevereiro, estacionou atrás de “la cachila” um enorme caminhão carregado com caixotes de madeira transbordando de uvas tintas. O cheiro de fruta madura tomou conta de todo o nosso quarteirão.
 
Os homens do caminhão começaram a descarregar as uvas na porta de meu vizinho enquanto Dom Antônio e Dona Catarina pegavam os caixotes e levavam para dentro da casa. Eu, que observava a cena,  me ofereci para ajudar na tarefa. Tive que insistir um pouco, mas afinal fui aceito. Com muito esforço, atravessamos o interior da casa com nossas caixas passando por um corredor escuro que cheirava a madeiras úmidas até chegar ao galpão do fundo, onde uma imensa cantina com frescor medieval e aromas de vinho se abriu ante meus olhos. Não podia acreditar que ao lado da minha casa existia um mundo de fantasia: tonéis, tanques de madeira para fermentação, recipientes e mangueiras estavam arrumados para receber as uvas. Quando acabamos de transportar todos os caixotes da rua para a cantina, já era meio-dia, então, Dom Antônio pegou da prateleira três canecas esmaltadas, abriu a torneirinha de madeira de um tonel e as encheu de vinho fresco. Sentamos em rústicos banquinhos para descansar, beber e conversar.  Foi um íntimo symposium. Perguntei se o vinho que produziam era para vender. Minha pergunta causou risos e suas bocas mostraram os dentes de ouro junto a outros dentes escuros. 
 
- Para vender? - disse Dona Catarina. – Há, há, há! Fazemos o vinho para bebê-lo no almoço e no jantar durante o ano todo. 
 
Dom Antônio agradeceu minha ajuda e insistiu para que eu  ficasse para o almoço,  para  comer a macarronada da sua esposa.  Então Dona Catarina acrescentou com orgulho: 
- O molho foi feito com tomates e  manjericão do nosso quintal. 
Foi impossível recusar. Deixamos a cantina e voltamos para a casa onde, perto do fogão a lenha, uma mesa  velha e aconchegante nos aguardava com uma garrafa de um litro de vinho tinto.
Num instante Dona Catarina secou suas mãos no avental e dispôs sem cerimônia três garfos, três copos e, no centro da mesa, uma grande travessa de louça com a macarronada.  A seguir Dom Antônio encheu os copos de vinho. Nesse momento descobri que, conforme o costume da casa, não existiam pratos individuais: com o garfo se pegava a comida da travessa, que ia diretamente à boca.
O aroma do vinho misturado ao delicioso cheiro da macarronada e a alegria brilhando nos olhos dos velhinhos permanecem até hoje na minha emoção e na minha memória, como se houvesse participado da “festa de Babette”.
 
Entusiasmado, eu disse:
- Quero fazer meu vinho, o senhor me ensina?
Dias depois, eu trazia para o pequeno quintal do meu apartamento uma tina grande, “damajuanas” (garrafões de 10 litros protegidos com cestas de palha), funis, mangueiras, rolhas de cortiça e outros apetrechos. Depois encomendei minha primeira remessa de uvas. Conforme instruções de Dom Antônio, retirei todos os cabinhos dos cachos e joguei os bagos no recipiente para fermentar. Tomei um banho, escovei bem meus pés e pernas, vesti um short velho e entrei no tanque para amassar as uvas. Eu pisava, dançava e pulava nas coitadas das uvas enquanto o cheiro me embriagava, até que comecei a rir e chorar de alegria. Minha alegria transformou-se em mosto. Após uma semana de fermentação no tanque, passei o vinho para as “damajuanas” e à medida que o vinho decantava, o transferia  para as garrafas, fazendo com que ficasse menos turvo e mais puro. 
Durante um ano minhas garrafas repousaram num canto fresco de minha casa.  No primeiro aniversário de minha filha abri uma de minhas garrafas de vinho e ofereci a meus amigos e familiares. Todos gostaram e elogiaram muito.  Hoje eu sei que aquele meu primeiro vinho não era bom. Mas foi o vinho que mais desfrutei na minha vida.
 
José Hodara
 

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Meu amigo o Vinho

 

Quando estou na mesa em roda de amigos, é o Vinho que me ajuda a escutar com atenção e liberar as melhores frases da conversa.  Quando estou sozinho, é o Vinho que me transporta aos campos das videiras, aos cheiros da cantina, ao silêncio dos tonéis e ao frescor de cada garrafa.

Às vezes, meu Vinho e eu entramos em meditação: só nós dois. Ele oferecendo sua magia e eu recebendo sua silenciosa comunicação de aromas, cores, sabores e sensações. Outras vezes, de seu cristalino cálice, ele fica me observado com seu olho de rubi intenso, aguardando quieto, pensativo, as minhas possíveis manifestações de alegria ou de tristeza.

Meu Vinho, você me conquistou, me afundou no conhecimento de teu líquido, de tua cultura e se converteu no meu grande amigo, o grande aliado de meu silêncio, de meus sentimentos, o grande companheiro que com sabedoria e simplicidade afaga minha alma e me rejuvenesce.

E eu também me fiz o teu amigo e sei que nunca vou te deixar, a menos que o médico me proíba de te beber, mas, nesse caso, por favor, não fique triste, bastará que eu troque de médico e continuaremos juntos. Porque quando te bebo, meu caro Vinho, viajo com minhas papilas até encontrar a origem de tua terra, vislumbrar tua paisagem e perceber as vibrações de tuas videiras perfurando com suas raízes as camadas mais profundas do subsolo para extrair as sustâncias que alimentam os frutos que te farão novamente renascer.

Você, meu Vinho amigo, sempre me surpreende com teus mistérios: o mistério da uva transformada em vinho, o mistério dos aromas, o mistério da simplicidade que te enaltece e o mistério de poesia que brota de teu cálice.

Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2009.

José Hodara

 

 

 

 

 

 

 

 

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